Com a escrita me acuso, me delato e inocento... Com a imagem denuncio sem palavras e me culpo em silêncio...
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O Açúcar da Vida!


Terra agreste
Verde terrestre
Amarelo feitiço
Um balão rebuliço
Assim sou eu
O açúcar da vida
Que voa sem vento
E vive com tempo



Pintura em acrílico e poesia de Ana Mascarenhas

Mulheres de Sal!


Deserto árido, vegetação ausente, e as lágrimas do seu suor, são a água que bebem de Sol a Sol.
São mulheres que trabalham na escavação do Sal, escavam até não mais verem a luz do dia.
As suas pernas são o seu equilíbrio, a enxada o instrumento de trabalho, e o homem é o que traz a água, quando o suor não chega para matar a sede.
Pergunto-me tantas vezes? Porque nestas comunidades vejo frequentemente mulheres arqueadas, muitas vezes, com filhos às costas, outras, sentados junto a elas, e os homens apenas ficam a ver, ou vão buscar água para elas beberem?
Questiono-me sem mais ilusões, quantas são as situações em que vi um homem a trabalhar e a mulher a descansar?
Aqui nestas comunidades as mulheres trabalham, as crianças trabalham e os homens bebem para depois chegarem, comerem o que a mulher cedo preparou antes de ir labutar, e depois para a cama vão-se lambuzar, no meio das pernas já cansadas destas mulheres, que trabalharam de Sol a Sol e agora querem o descanso, mas apenas dão o pão e aquecem o varão.
O dia acordou novamente, aqui o Sol aquece cedo e ilumina de madrugada, por isso, mais um dia passa, o fogão já acesso para a comida ficar feita, de seguida a partida, lá vão elas para o deserto, descalças ou de chinelos, mas sempre na companhia das suas enxadas e dos seus tradicionais panos, com que tapam o corpo e a cabeça do Sol que aquece, à medida que o dia amanhece.
É assim que vivem estas mulheres, mulheres guerreiras, lutadoras, mulheres que colhem o que o diabo amassou, e no final do dia, já o Sol se escondia, mas continuam com um sorriso de uma inocente alegria, pois, vão para casa carregadas com o Sal que de dia recolheram, para fazerem pequenos montes e encherem os alguidares de cores fortes, e os levarem nas suas cabeças.
Afinal, este é o sustento das suas famílias.
O sustento do homem é à sombra a observar o tempo passar, e aguardar a mulher chegar, para depois penetrar nos seus seios ressequidos, já bem descaídos de tanto amamentar, não só o homem, mas também os seus filhos.
É a vida das Mulheres por estas bandas!
É a vida das Mulheres por estas terras!
É a vida das Mulheres do deserto!
É a vida das Mulheres de Sal!

Texto e Fotografia de Ana Mascarenhas





O Menino das Grutas


Duas Imagens, duas cores,
duas grutas, duas vozes,
duas poses!

Mas sempre com um único olhar,
um único gesto
E um único sorriso...

Escondido entre lábios fechados,
mas nunca calados, pelas palavras ouvidas
e nunca paridas, pelos sorrisos
sofridos e nunca amados…

És o menino das grutas!
aquele que oculto, cala a bala e mastiga a fome,
bebe a sede e vomita a vontade,
aquela que ajuda quem tudo tem e nada precisa,
aquela que abriga a saudade e ampara a verdade…

Pisas a terra molhada com os teus secos pés
Calejados pelas pedras banidas e bem afiadas
Olhas para cima e os morcegos são a tua companhia
Olhas para baixo e a areia a tua seca caminha

És tu o menino marcado!
És tu um sorriso vedado!
És tu um olhar encantado!

És tu o menino das Grutas!

Ana Mascarenhas
23 Mar 23




Sofrer sem Saber...

 

A minha mensagem de Natal

 




Nasci dentro de uma gruta, dizem…

Do ventre de Maria, minha mãe, dizem…

Meu pai assumiu-me, José, dizem…

E o meu nome ficou escrito, Jesus, dizem…

 

Outros há que confirmam o que dizem

E mais outros que desmentem o que dizem

Outros também confirmam, mas de forma diferente

E ainda outros, afirmam, rejeitando a sua existência

 

Não importa o caminho, não importa o Deus

Não importa o seu nome ou até se é energia

Não importa o passado, muito menos o futuro

Importa sim, o presente, este que construímos

 

Vivemos com o teto sem saber o que é o céu

Vivemos com o chão sem saber o que é a terra

Vivemos com as paredes sem saber o que é o vento

Vivemos com as pessoas sem saber o que é a solidão

 

Mergulhamos em águas sem saber o que é a transparência

Abraçamos com os braços sem saber o que é sentir

Olhamos com os olhos sem saber observar

Comemos com a boca sem saber apreciar

 

Damos valor ao material, esquecendo o valor da Alma

Valorizamos o que não temos, desapegando-nos ao que temos

Discutimos por tudo e por nada, quando o nada é o tudo para alguém

Vivemos apenas o nosso umbigo, desdenhando quem ao nosso lado está

 

Sim, Deus, ou Deuses, não quero saber o nome

Ele(s) existe(m)? Se existe(m), está(ao) dentro de nós.

Invoquem-No, para que Ele nos elucide, nos Ensine a Amar

Nos Ensine o que é a Paz, o que é a Gratidão, o que é a Bênção!

Meninos sem Terra, sem Céu, sem água ou fruta da árvore

Aquela que chamam a do pecado, sorriem sem nada, dançam sem música

Inventam jogos e brinquedos e ainda assim, são felizes pela inocência que têm

Em saber que por vezes, a ignorância é de facto uma bênção, pelo menos…

 

Sofrem sem saber…

 

Desejo a todos um Santo Natal!


 

Ana Mascarenhas

23 Dez 2021

Bolero!




Fecho os olhos
Oiço a música
Ela em mim cresce, floresce
Bolero!

O som levemente perscrutado pelos meus ouvidos
Segue na direção do meu cérebro e este apenas o dirige para o meu corpo
Uma vez mais, Bolero!

De olhos vendados e sentidos apurados, Bolero fecunda-me a Alma
Invade-me o corpo e dele faz o seu palco, o seu recinto de melodia
Com ele os meus braços acenam suavemente como asas de borboletas
Que espantam o vento, mas não a ventania… é tudo muito suave… a música toca

Toca ainda no seu estado mais puro, as batidas são delicadas, por isso o corpo dança
Balança com pés de veludo, sem machucar, sem esvoaçar
A batida aumenta, os sons esventram-me o corpo, e nele tudo estremece
Os sentidos tendem a explodir, a música força-me a sentir
É uma vez mais, Bolero!

O delicado passa a excessivo, entro em erupção, entro em completo transe, explosão
A música torna-se insolente, descarada, metediça, e sem licença pedir, penetra-me no corpo e dele faz o seu coito, o seu prazer… sentir, apelar e saborear o que é bom de ouvir…. Bolero!

Sim, Bolero de Ravel, a balada que aumenta o prazer de sentir ao ouvir tamanha melodia. 


Ana Mascarenhas